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Morte e Vida de Charlie St. Cloud de Ben Sherwood

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Uma história de amor emocionante, mágica e que nos faz acreditar em milagres.

Morte e Vida de Charlie St. Cloud inspirou o filme estrelado pelo galã Zac Efron, Best-seller nos EUA, figurou a lista dos mais vendidos do New York Times agora traduzido para o Português, esta emocionante aventura irá cativar leitores e leitoras e ensinar que a vida às vezes é feita de milagres. Charlie é um garoto que recebe um dom extraordinário: ele consegue conversar e brincar com o espírito de seu falecido irmão. Após encontrar Tess, uma navegante cheia de sonhos, os dois precisam decidir entre apegar-se ou deixar o passado para trás. E eles descobrem que milagres podem acontecer se nós simplesmente abrirmos nossos corações.

Sendo um dos livros que já entrou pra minha lista de leitura do ano, procurei pela net se o primeiro capítulo havia sido disponibilizado pela editora. A leitura desse primeiro capítulo me despertou interesse e me deixou com mais vontade de ter um exemplar em mãos. Então, aí vai o primeiro capítulo pra vocês.


Correndo com a Lua
Um

Charlie St. Cloud não era o melhor ou o mais inteligente dos garotos do condado de Essex, mas ele certamente era o mais promissor. Ele era o vice-representante de sua sala de aula, jogava na defesa do time de beisebol – os Marblehead Magicians – e era cocapitão do clube de debates. Com uma covinha marota em uma das faces, nariz e testa cobertos de sardas por causa do sol e olhos cor de caramelo escondidos por trás de uma franja loira, ele já era bonito aos 15 anos de idade. Ele era amigo tanto dos atletas quanto dos nerds da escola, e namorava uma menina que estava um ano à frente dele na escola. Sim, Charlie St. Cloud era um garoto abençoado, rápido em mente e corpo, destinado para coisas boas, talvez até mesmo uma bolsa de estudos em Dartmouth, Princeton, ou alguma outra faculdade de prestígio.

A mãe dele, Louise, celebrava cada uma de suas conquistas. Realmente, Charlie era tanto a causa quanto a cura das decepções da vida de sua mãe. Os problemas haviam começado no momento em que ele foi concebido, uma gravidez indesejada que fez com que o homem que ela amava – um carpinteiro de mãos habilidosas – a abandonasse rapidamente. Depois, foi a vez da jornada de Charlie para este mundo, obstruída em algum lugar do corpo da mãe que necessitou de uma longa cirurgia para poder dar à luz o garoto. Logo, um segundo filho chegou, de um outro pai desaparecido, e os anos se passaram em uma batalha infindável. Mas, mesmo com todas essas dificuldades, Charlie fazia a dor sumir com aqueles olhos brilhantes e seu otimismo. Ela veio a gostar dele como o seu anjo, seu mensageiro de esperança, e ele nunca faria nada de errado.

Charlie cresceu rápido, estudou muito, cuidava de sua mãe e adorava seu irmão menor mais do que qualquer pessoa no mundo. Seu nome era Sam, e o pai do pequeno – um financista – também havia desaparecido, sem deixar qualquer rastro, a não ser pelos cabelos encaracolados de seu filho e alguns hematomas escuros no rosto de Louise. Charlie acreditava que ele era o único protetor verdadeiro de seu irmão menor, e que, algum dia, juntos, eles seriam importantes no mundo. Os garotos tinham três anos de diferença, de complexão e destreza opostas, mas eram ótimos amigos, unidos em seu amor por pescar, subir em árvores, por um beagle chamado Oscar e pelo Red Sox.

Então, um dia, Charlie tomou uma decisão desastrosa, um erro que a polícia não conseguiu explicar e o juizado de menores fez de tudo o que podia para deixar passar.

Para ser mais preciso, Charlie arruinou tudo na sexta-feira, 20 de setembro de 1991.

A mãe deles estava trabalhando no turno da noite no supermercado Penni’s, na Rua Washington. Os garotos chegaram da escola com travessuras em mente. Eles não teriam de fazer lição de casa até a noite de domingo. Já tinham ido espionar as gêmeas Flynn no quarteirão de baixo. Tinham pulado a cerca e se esgueirado para dentro da propriedade do refugiado da República Tcheca que dizia ter inventado a bazuca. Ao pôr do sol, eles estavam praticando arremessos com a bola de beisebol sob os pinheiros do seu quintal na Alameda Cloutman, como faziam toda noite desde que Charlie havia dado a Sam a sua primeira luva Rawlings em seu aniversário de sete anos. Mas já estava escuro, e eles já tinham esgotado as possibilidades de aventura.

Sam poderia ter sossegado no sofá para assistir ao videoclipe “Wicked
Game”, de Chris Isaak, na MTV, mas Charlie tinha uma surpresa. Ele queria ação e tinha o plano perfeito.
− Que tal uma pescaria noturna na praia Devereux? − ele perguntou a Sam, preparando a pegadinha para o seu irmão.
− Que chatice − disse Sam. − Nós fazemos isso toda vez. Que tal um filme? Está passando O Exterminador do Futuro 2 no cine Warwick. Nick Burridge nos deixa entrar pela porta dos fundos.
− Eu tenho uma idéia melhor.
− O filme é impróprio para crianças. O que é melhor do que isso? harlie tirou dois ingressos do bolso do seu casaco jeans. Ingressos para o jogo do Red Sox. Eles iam jogar contra os Yankees. O time de Boston estava ganhando tudo, e os coitados dos nova-iorquinos haviam perdido 11 dos seus últimos 13 jogos.
− Não acredito! Como você os conseguiu? − Sam perguntou.
− Eu tenho as minhas fontes.
− E como vamos chegar lá? Voando?
− Não se preocupe com isso. A Sra. Pung está de férias. Podemos pegar o carro dela.
− Pegar o carro dela? Mas você nem tem carteira de motorista!
− Você quer ir ou não?
− E o que você vai falar para a mamãe?
− Não se preocupe. Ela nunca vai saber.
− Não podemos deixar o Oscar sozinho aqui. Ele vai destruir a casa inteira.
− Ele pode vir com a gente também.
Logo, Charlie, Sam e o beagle estavam dirigindo para Boston no carro da Sra. Pung. Sem a sua vizinha, é claro. O relatório da polícia tinha longas menções sobre dois menores sem habilitação, um cão e um veículo branco com interior vermelho que havia sido roubado. Mas a Sra. Pung retirou a acusação de roubo quando ela voltou de Naples, na Flórida. “Eles eram bons garotos”, ela disse. Eles simplesmente pegaram o carro emprestado. Cometeram um erro terrível. E pagaram muito caro por isso.

A viagem demorou 30 minutos, e Charlie tomou bastante cuidado enquanto dirigia na rodovia 1A, onde os policiais Swampscott e Lynn patrulhavam. Eles escutaram o programa preliminar ao jogo na rádio WRKO, conversaram sobre a última vez em que estiveram no estádio, e contaram seu dinheiro, calculando que tinham o suficiente para dois cachorros-quentes para cada um, amendoins e uma Coca.
− Este é o nosso ano − disse Sam. − Os Sox vão ganhar o campeonato.
− Eles só precisam quebrar a Maldição do Bambino − disse Charlie.
Era a superstição de todos os fãs do time de Boston: vender Babe Ruth para os Yankees havia colocado uma maldição nos Sox.
− Você não acredita nessas coisas, acredita?
− Pense no caso. Os Sox não ganham o campeonato desde 1918. Os Yanks já ganharam 22 vezes desde então. Faça as contas.
− Puxa, a maldição não fez Bill Buckner perder aquela bola caída em 1986. − Buckner era o infame homem da primeira base que havia deixado uma bola fácil passar por entre as suas pernas na competição, custando o sexto jogo da final aos Sox e, de acordo com muitos fãs, o próprio campeonato.
− Como você sabe?
− A maldição não existe.
− Eu acho que existe.
− Não existe.
− Existe.
Um empate.
− Empate? − disse Sam, relutantemente.
− Ok, empate.

E, com isso, a discussão havia terminado, mas não estava finalizada por completo. Um empate era a maneira que os garotos tinham de interromper uma disputa que teria durado a noite toda. Ela seria obrigatoriamente registrada no Livro de pequenas & grandes discussões de Charlie & Sam. E, após as necessárias formalidades, poderia ser retomada novamente a qualquer momento. Ignorando a diferença de idade, Sam se lançava nessas discussões com furor, e os dois irmãos frequentemente passavam horas na biblioteca pública de Abbott, na Rua Pleasant, buscando munição para as suas batalhas.

Agora, com seus tijolos vermelhos e vidraças reluzentes, Boston os aguardava após o rio Charles. Eles viraram na Avenida Brookline e viram as luzes do estádio. Tentando morder o ar gelado, Oscar colocou a cabeça para fora da janela. Com seu pelo marron e branco, ele era o mascote perfeito para a aventura.

No estacionamento, os garotos colocaram seu beagle dentro de uma mochila e se dirigiram para as arquibancadas. Quando chegaram aos seus assentos, houve uma onda trovejante de gritos e aplausos para Roger Clemens, o jogador com a camisa número 21, que havia arremessado o seu primeiro foguete. Rindo, os garotos se curvaram para a direita e para a esquerda, agradecendo as palmas da multidão. Um dos seguranças do estádio, posteriormente, disse que viu os dois menores desacompanhados, usando bonés e luvas, mas não os interpelou ou questionou.

Seus assentos eram à direita do campo, logo atrás de um cara que devia ter mais de dois metros de altura, mas não importava. Poderia ter chovido, poderia ter nevado. Nada poderia arruinar o espetáculo do imenso muro apelidado de Monstro Verde à esquerda, a grama, as linhas, e a terra vermelha do interior do campo. Eles estavam bem próximos do poste de Pesky, a pouco mais de 100 metros da base principal, uma boa distância para conseguir pegar um home run. Wade Boggs, um de seus heróis, estava no banco de reservas, com o ombro direito contundido, mas Jody Reed tomou seu lugar e o substituiu perfeitamente, com uma corrida de dois pontos e um home run que bateu no poste de marcação esquerdo. Os garotos comeram dois cachorros-quentes cada um, com bastante molho. Oscar ganhou pipocas e amendoins doces de uma senhora da fileira ao lado. Um homem grande e barbudo lhes deu alguns goles da sua Budweiser. Charlie tomou cuidado para não beber demais. Mesmo assim, o relatório da polícia mencionaria indícios de álcool no sangue dos garotos. Havia o suficiente para fazer perguntas, mas não o bastante para obter respostas.

Clemens bloqueou os Yankees, permitindo apenas três rebatidas e eliminando sete rebatedores. A multidão vibrava, e Oscar uivava. Com o fim do jogo e uma vitória de 2 x 0 nos registros, os fãs se espalharam, mas os garotos permaneceram em seus assentos, repassando as melhores jogadas. O time agora estava muito próximo da equipe de Toronto. Em vez de se esfacelar em setembro, o mês mais cruel de todos, os Sox estavam vencendo.
− Algum dia, nós vamos ter ingressos para toda a temporada – disse Charlie. − Bem lá, atrás da base principal, na primeira fila.
− A arquibancada não é ruim para mim − disse Sam, comendo os últimos amendoins. – Eu não me importo com os assentos. Desde que a gente esteja junto, é isso que deixa o beisebol ótimo.
− Nós sempre jogaremos beisebol, Sam. Não importa o que aconteça.
As luzes do estádio começaram a se apagar. Os funcionários do campo haviam terminado de estender a lona por sobre a área de terra no interior do campo.
− Hora de ir para casa − disse Charlie.

Os garotos andaram até o estacionamento, onde o carro branco estava sozinho. A viagem para casa foi muito mais rápida. Bruce Springsteen cantava “Born to Run” no rádio. Sequer havia trânsito. A viagem levaria cerca de meia hora. Eles chegariam em casa por volta das 22h30. A mamãe não chegaria em casa antes da meia-noite. A Sra. Pung, na Flórida, nunca suspeitaria de nada. Logo após o Wonderland Greyhound Park, Sam tirou uma fita cassete do bolso e colocou-a no toca-fitas do carro. Era The Joshua Tree, do U2. Charlie cantou em acompanhamento à canção “With or Without You”.
− Bono é o cara. − disse Sam.
− Springsteen.
− Bono.
− Springsteen.
− Empate?
− Empate.
Eles viajaram em silêncio por algum tempo, até que Sam perguntou repentinamente:
− Quanto tempo vai demorar para eu crescer?
− Você já cresceu.
− Estou falando sério. Quanto tempo até que eu deixe de ser criança?
− Oficialmente − disse Charlie −, quando você tiver 12 anos, você é um homem e pode fazer o que quiser.
− Quem disse?
− Eu.
− Eu sou um homem e posso fazer o que eu quiser − disse Sam, deliciando-se com o som da frase. A lua flutuava imensa sobre o rio Saugus, e ele desceu o vidro da janela. − Olhe − ele disse. − Está maior hoje. Deve estar mais próxima de nós.
− Não − disse Charlie. − Está sempre a mesma distância. É só uma ilusão de ótica.
− O que é ilusão de ótica?
− É quando seus olhos pregam uma peça em você.
− Que tipo de peça?
− Em qualquer lugar que a lua esteja no céu − disse Charlie −, ela sempre vai estar a 363.223 quilômetros de distância − ele fez as contas, era bom em matemática. − Na velocidade em que estamos, demoraria uns 170 dias para chegarmos lá.
− Acho que a mamãe não iria gostar disso − disse Sam.
− E a Sra. Pung não iria gostar da quilometragem no marcador do carro.
Os garotos riram. Então Sam disse:
− Não é uma ilusão de ótica. Ela está mais perto hoje, eu juro. Olhe, dá pra ver uma aura, assim como a de um anjo.
− Isso não existe − disse Charlie. − Isso é a refração dos cristais de
gelo na parte de cima da atmosfera.
− Ah, eu achei que era a refração dos cristais de gelo na sua bunda! − Sam riu alto, e Oscar latiu uma série “aus” agudos e distintos.

Charlie verificou os retrovisores, endireitou o carro pela estrada e deu uma rápida olhada à direita. A lua tremeluzia por entre a armação de ferro da ponte levadiça, acompanhando-os no seu caminho para casa. Ela realmente parecia estar mais perto do que nunca nesta noite. Ele virou a cabeça para enxergar melhor. Ele pensou que a ponte estava vazia, e pisou no acelerador.

De todas as suas decisões impensadas naquela noite, esta com certeza foi a pior de todas. Charlie tentava ultrapassar a lua e, no último segundo, ele viu a imagem perfeita da felicidade. O rosto inocente de Sam olhando para ele. Um cacho castanho balançando em frente a sua testa. A luva Rawlings em sua mão. E, depois, somente vidro quebrado, metal e escuridão.


(Fontes: Submarino e LivrariaCultura)
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